historinha

muita gente pensa que a minha maluca é a tia rute... mas não é não , é tia odete do "perdoa-me por me traíres"...quando voltei pro núcleo , as cenas já estavam prontas... a nora  sugeriu que eu criasse uma personagem com pequenas entradas... a denise  me lembrou da tia odete... tia odete não diz nada além da breve frase "tá na hora de tomar a homeopatia"- sempre a mesma frase .Vive fazendo uma interminável viagem pelos cômodos da casa , não se senta nunca. É  esposa do tio raul , senhora taciturna , rosto inescrutável (rubrica do nelson  ).
conversei com vários atores que  montaram o" perdoa-me"  pra saber o que  teria levado a tia  a esse estado (o texto não explica)... muitos acham que a catatonia começou quando ela flagrou o tio na cama com a cunhada judite ...

embarquei na viagem -
"na minha cama , nos meus lençóis branquinhos do enxoval..."
"que nojeira , ficar se agarrando misturando cuspe..."
"sutiã encardido no chão, coisa de judia porca..." ( ouví essa frase da boca da mãe de uma amiga de escola)

as coceiras vieram de mim mesma...aquela contadora de mosquitos também era eu... agora não conto mais os mosquitos , mas  fico atrás da cortina contando o número de pessoas na platéia ( queria entrar em cena e dizer - "hoje temos 42 pessoas na platéia ")...a deby e a aninha ficam bravas comigo mas não consigo controlar (a doença  se chama transtorno obssessivo compulsivo)...não se preocupem , tenho um médico que cuida disso ( e dos meus outros 72 transtornos) ...

a idéia da escapada das tias veio da "casa de bernarda alba"...as mulheres de lorca mantém a avó maluca presa no sótão( pra esconder dos vizinhos) ...a tal avó se veste de noiva e vive super maquiada... vira e mexe ela foge e  rola um puta escarceu pra trancafiar a velha de novo...

glorinha , acabou virando mesmo prostituta do bordel de madame luba e cuidando da tia odete (vocês lembram? tio raul tomou veneno) ...mas um belo dia surtou também...mme senhorinha trouxe as duas pro casarão da rua taylor ( pensava que glorinha ainda poderia lhe render uns bons tostões)...ledo engano , glorinha tinha virado uma doida varrida !...agora senhorinha sustenta  as duas parentas e  moema (que pirou depois de matar toda a família  e desembarcou na praça xv completamente transtornada)...
enfim , sempre que tem freguês , senhorinha precisa cuidar pra que as três estejam bem escondidinhas...

desde pequena gosto de histórias de mulheres loucas...acho todas lindas! apesar do brilho triste no olhar... a loucura feminina é uma  forma criativa de fugir da repressão...a educação machista deixou  feridas profundas e destruiu muita juventude... as loucas de alguma forma conseguiram preservar o  instinto feminino ( mesmo com o isolamento e a humilhação a que tiveram que se sujeitar)...



Escrito por Rita Fernandes às 21h52
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reta final

Queridos,

Estamos nos aproximando da estréia, e com ela muitas descobertas, muitos medos, muitas realizações. Retomamos um processo que já existia. Para mim pessoalmente tem sido uma experiência muito boa. Existe um frescor por estar fazendo uma nova personagem, tão diferente da Moema que eu fazia apesar que as duas são prostitutas.

Particularmente o Nelson sempre teve uma proporção grande na minha vida, desde que comecei a fazer teatro, me identifiquei com o seu universo obsessivo apaixonante.

Caminhamos para mais uma temporada, entre chuvas e tempestades, estou aqui, mais uma vez e que Dionísio nos abençoe!

 



Escrito por Denise Janoski às 11h05
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Cartaz e Cartão Postal

Genta estão ai o cartaz e o cartão que eu desenhei para o novo ensaio. Espero que gostem... bjocas

  



Escrito por Laerte Késsimos às 12h58
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Primeiras imagens do ensaio



Escrito por Edu Castanho às 01h25
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"Um Teatro que esteja à altura do inconsciente e da libido, não pode ser bonzinho, não pode ser bombom com licor".
Nelson Rodrigues.

Escrito por Rita Fernandes às 08h50
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Nas fotos vemos o Largo da Lapa, onde começa a rua Taylor e o casarão amarelo - o 348, onde funciona o bordel. A dona dele é Mme. Clessi.

Escrito por Rita Fernandes às 13h01
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Biografia do Nelson

Ótima biografia do Nelson Rodrigues em http://www.releituras.com/nelsonr_bio.asp

Escrito por Rita Fernandes às 12h51
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Cada um com sua loucura

Sinto que estamos enlouquecendo cada vez mais nesse processo. Quer mais loucura que trabalhar Nelson Rodrigues e Antonin Artaud ao mesmo tempo? Estamos remontando o espetáculo "Ensaio sobre Nelson", que reestréia em meados de maio, e no processo de criação de Artaud. Não sabemos ainda o que vai sair, mas posso dizer que as improvisações que estamos fazendo em cima do universo de Artaud estão sendo uma loucura. Mas como disse nosso diretor Rodolfo: "vocês deram só um passo até agora". Realmente, o caminho é longo, e a vontade em fazer é grande.
Precisamos nos jogar, acreditar no trabalho e no quão importante é o que estamos fazendo. O retorno será consequência.

Escrito por Edu Castanho às 11h43
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A revolução surrealista e o valor do desejo
Por Jorge Coli

O primeiro manifesto surrealista data de 1924. Desde aí, o movimento dispôs, com clareza, uma atitude de furor contra a ordem do mundo, uma revolta que deveria conduzir o espírito à liberdade mais alta e absoluta. Esse desejo libertário proclamava-se num grupo bastante coeso, que gravitava à volta de André Breton. A sociedade em que viviam lhes parecia comprometida com covardias, egoísmos, interesses escusos de toda sorte. A revolta, o furor, a liberdade, dependiam da eclosão de uma disciplina espiritual, capaz de instaurar a pureza do desejo. O grupo se faz controlador. Patrulha o comportamento de seus membros.

Deste modo, as atitudes normativas que regem ações humanas, tais como foram praticadas pelo movimento surrealista, distingue, antes de tudo, algo que poderia ser chamado de atitude moral ou moralizadora. Este é um dos aspectos mais visíveis do comportamento dos surrealistas, em particular porque explode em dissidências escandalosas, em brigas individuais encarniçadas. É regido por um conjunto nega-tivo, muito exigente, de regras, que indica aquilo que não deve ser feito e onde é preciso não ceder. Tais preceitos, no entanto, não são visíveis dentro de um código nitidamente constituído. Eles emergem dos casos concretos.

Trata-se de uma moral ascética. É mesmo surpreendente o quanto ela é conservadora, ainda que se leve em conta os valores consagrados pela sociedade do tempo, valores contra os quais, em princípio, os surrealistas erguiam-se ou, por coerência, seria possível esperar que eles se erguessem. Desde os primórdios do movimento, a droga, muito freqüente nos meios intelectuais de vanguarda -pensemos, por exemplo, no célebre tratamento de desintoxicação feito por Cocteau sob a influência de Jacques Maritain, logo antes de sua conversão ao catolicismo- é apenas tolerada; o sexo é vinculado a práticas estritamente heterossexuais e monogâmicas.

O trecho de um diálogo sobre a sexualidade, ocorrido na noite de 27 de janeiro de 1928, é muito expressivo:

“Péret: O que você pensa da pederastia?
Queneau: De que ponto de vista, moral?
Péret: Por exemplo.
Queneau: A partir do momento em que dois homens se amam, não tenho nenhuma objeção moral a fazer sobre suas relações fisiológicas.
Protestos de Breton, de Péret e de Unik.
Unik: Do ponto de vista físico, tenho tanto nojo da pederastia quanto dos excrementos, e do ponto de vista moral, condeno.
Prévert: Concordo com Queneau.
Queneau: Constato que existe, entre os surrealistas, um singular preconceito contra a pederastia.
Breton: Eu acuso os pederastas de propor à tolerância humana um déficit mental e moral que tende a se erigir como sistema e a paralisar todos os empreendimentos que respeito.”1

É Thierion quem lembra, em Revolutionnaires Sans Révolution2 que, nos meios surrealistas, por volta de 1927, “o uso da droga, a homossexualidade eram objetos de reprovação e as duas ou três exceções toleradas (Malkine e Crevel, por exemplo), se explicavam pela honestidade profunda e pelas qualidades humanas dos interessados. Sexo, por sinal, era uma das obsessões mais fortes do grupo, tanto nas obras por eles produzidas, quanto em discussões. A libertinagem era mal vista, a malícia, proscrita. A regra de ouro era o amor-paixão, de preferência fatal, entre dois indivíduos do sexo oposto.

Na medida em que o amor-paixão era exaltado como o bem supremo, o amor único se impunha como ideal, pois seria possível amar duas vezes? O contrário não abria as portas à libertinagem, com as complacências que tais exercícios arrastam para si e para os outros (...)? As mulheres amadas tornavam-se objeto de veneração (...). As aventuras, sempre suspeitas, só podiam ser levadas em consideração apenas se se envolvessem por circunstâncias singu-lares, às vezes inteiramente inventadas por aqueles que queriam desculpá-las. Entretanto, a prostituição feminina não era condenada, e os bordéis tinham defensores confessos: Aragon, Éluard e mesmo Breton. Essas regras estreitas e um pouco contraditórias foram freqüentemente quebradas pela força da vida, mas no final das contas, a maior parte dos surrealistas devia, grosso modo, permanecer-lhes fiel”.

Xavière Gauthier 3 notará que Crevel será o único no grupo a se opor “enérgica e sistematicamente a todos os mitos alienadores da mulher: ele recusa a sexualidade monogâmica, ele recusa a sublimação ilimitada da mulher, ele recusa em fazer desta última um instrumento de reprodução, ele recusa em ‘virginizá-la’, em puerilizá-la, em beatificá-la” 4. Porém, Breton freqüentemente se servirá de critérios mo-rais para atacar os dissidentes -como o fez com Desnos, no segundo manifesto surrealista 5. E Jacques Baron, para ironizar, em Um Cadáver, dirá: “Era o íntegro Breton, o indomável revolucionário, o severo moralista”6.

Perpassa por tudo isso, uma evidente tradição herdada dos comportamentos românticos, com suas prolongações decadentistas. Mas, de modo ainda mais claro, surge uma exigência de verdade, solicitada aos contemporâneos, a partir dos próprios critérios estabelecidos por estes últimos. Ou seja, o que temos, em verdade, é uma radicalização “purificadora” das próprias regras da moral “burguesa”, exigidas com extrema severidade, mantendo mesmo, como num espelho cristalino que reflete tudo com nitidez implacável, a falsa contradição do dualismo monogamia /bordel.

A essas regras associa-se, entretanto, uma exigência de “pureza” também em relação ao trabalho e ao comércio artístico. “Quase todos os suportes materiais eram condenados: o trabalho era desprezado e as atividades jornalísticas ou para-artísticas eram assimiladas à traição”7. Max Ernst e Miró são insultados por causa de uma encomenda que aceitam para cenários de balé, feita por Diaghilev. E no Segundo Manifesto, manifesto de anátemas, encontramos, entre outros exemplos, o de Artaud8: “Ele fazia a montagem de O So-nho de Strindberg, tendo ouvido dizer que a embaixada da Suécia pagaria (o sr. Artaud sabe que eu posso provar), e ele estava consciente que isso determinava o valor moral de seu projeto”.

Os exemplos poderiam se multiplicar, mas o importante é que a noção de comércio ou venda, ligada à desonestidade ou à desonra, alarga e ultrapassa o quadro inicial do “ascetismo burguês”. Na realidade, trata-se de uma oposição à burguesia, à sociedade, por uma exigência extrema de honestidade para consigo mesmo, traduzida pela recusa a toda sedução que esteja contida neste mundo. Trata-se de conservar incólume uma pureza primordial para reencontrar a liberdade, esmagada pelo mundo exterior. Trata-se de se dispor, como homem e como artista, fora de qualquer submissão a tudo que possa exalar cheiro de lucro ou de rentabilidade monetária. Salvador Dali assumiu e encarnou o anjo caído do surrealismo; objeto dos mais violentos anátemas de André Breton9 -que o chamava pelo anagrama de “Avida Dollars”- não cessará jamais de provocar a ortodoxia bretoniana.

Escrito por Rita Fernandes às 08h41
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Conservar-se puro para reencontrar a própria liberdade é o ponto de partida do surrealismo no Primeiro Manifesto; o mundo esmaga a liberdade que poderia ser:

“As ameaças se acumulam, cedemos, abandonamos uma parte do terreno a conquistar. Essa imaginação que não admitia limites não é mais autorizada a exercer seus poderes a não ser segundo leis de uma utilidade arbitrária; ela é incapaz de assumir durante muito tempo esse papel inferior e, por volta dos vinte anos, prefere, em geral, abandonar o homem ao seu destino sem luz”.

Herdeiros evidentes dos românticos, os surrealistas revelam claras ligações com o século XIX. De um surrealismo a um surromantismo há, quase que só, um programa e uma sistematização apenas.

Mas a moral negativa não poderia se contentar consigo própria. O surrealismo inventou dispositivos para reencontrar essa liberdade perdida ou esmagada. A negação protege das contaminações possíveis e o automatismo, a narração dos sonhos, o frottage, entre outros, serão instrumentos propiciatórios que cristalizarão, por meio da linguagem ou da arte, essas manifestações de liberdade perdida.

Por um lado, reencontrar a liberdade não significa uma terapia individual. Por outro, o surrealismo não se quer como uma estética. Não sendo nem uma terapia, nem uma estética, o surrealismo não adapta essa liberdade interior ao mundo, mas bem ao contrário, inflama as contradições. O surrealismo se quer, desde seus inícios, em luta contra o mundo opressor, e a partir daí proclama-se revolucionário. Desde 1924 ele se exprimirá num periódico que se chama justamente “A Revolução Surrealista”. Os princípios revolucionários são estabelecidos muito cedo, na “Declaração do dia 27 de janeiro de 1925”, um manifesto ao qual o surrealismo, durante toda sua história, jamais se afastou. Eis o texto10:

“1. Não temos nada a ver com a literatura. Mas somos muito capazes, se necessário, de nos servir dela como todo mundo.

2. O surrealismo não é um meio de expressão mais ou menos fácil, nem mesmo uma metafísica da poesia. É um meio de libertação total do espírito e de tudo o que se parece com ele.

3. Nós estamos firmemente decididos a fazer uma Revolução.

4. Juntamos a palavra surrealismo à palavra Revolução apenas para mostrar o caráter desinteressado, desligado e mesmo completamente desesperado dessa revolução.

5. Não pretendemos mudar em nada os erros dos homens, mas pensamos com firmeza demonstrar-lhes a fragilidade de seus pensamentos, e sobre que fundações movediças, sobre que porões eles fixaram suas trêmulas casas.

6. Lançamos à sociedade este solene aviso. Que ela preste atenção aos seus equívocos, a cada um dos maus-passos de seu espírito, nós não a perdoaremos (...).

7. Somos especialistas na Revolta. Não existe um meio de ação que, em caso de necessidade, não sejamos capazes de empregar (...).

O surrealismo não é uma forma poética.
É um grito do espírito que se volta a si mesmo e está decidido a moer desesperadamente suas travas.
E, se necessário, por meios materiais”.

Da revolta à revolução, da revolução ao empenho político, o caminho é bastante conhecido. Aproximação, depois ruptura com o Partido Comunista, em seguida encontro de Breton e Trotsky e formação de uma aliança prenhe de ambigüidades. E a crítica politizada, marcada por Marx, reage.

Nos idos de 1968, de um intelectualizado e sofisticado artigo de Philipe Sollers em Tel Quel11, ao pensamento ortodoxo do Partido Comunista francês, expresso por Jean-Louis Houdebine na revista Nouvelle Critique, com o ensaio “André Breton et la Double Ascendence du Signe” 12, assistimos à cristalização veemente de críticas antigas à “ingenuidade” ou “idealismo” surrealistas, analisados e denunciados com veemência, graças a uma inesperada atualidade.

O número 31 de Nouvelle Critique é uma tomada de posição face aos acontecimentos de maio de 1968, e a crítica ao surrealismo se encontrou então sob a égide de um ataque contem-porâneo a “uma prática política pseudo-revolucionária” 13. De um ponto de vista teórico e geral, a crítica de Tel Quel é também fundamentalmente a mesma, dirigida aos contemporâneos e aos os surrealistas, e os “critérios morais”, o “espontaneísmo”, os “modelos subjetivos idealistas” serão contraditos por “análises objetivas”. Além disso, o surrealismo, ou pelo menos um “espírito surrealista”, era associado a manifestações do movimento de 1968, como assinala Houdebine:

“É forçoso, no entanto, constatar que a ideologia surrealista (muito mais que sua prática propriamente dita) não deixou de se espalhar sob formas aliás mais ou menos difusas e que se devem à própria natureza do movimento: não é a toa que certos muros (sempre os mesmo, aliás) do mês de maio de 1968 se cobriram de slogans ‘surrealistas’ ou de ‘espíritos surrealistas', atestando a reativação maciça dessa ideologia em função de uma situação política excepcional” 14.

A forma mais lapidar exprimindo o núcleo central de todas es-sas críticas, e conferindo aos atacantes uma invejável legitimidade histórica, encontra-se certamente no texto de Georges Bataille, intitulado: “La ‘vieille taupe’ et le prefixe sur dans les mots surhomme et surréaliste”. Este escrito data de 1931, do ardoroso momento de conversão de Bataille ao marxismo; mas, por razões circunstanciais, ficou durante muito tempo inédito 15, e foi ressuscitado oportunamente em 1968 pela revista Tel Quel a que nos referimos.

1 - "Recherches Sur la Séxualité", in "La Révolution Surréaliste Paris", Gallimard, 1928, apud "Labirinto Surrealista", Brasilcap, CCBB, MinC, 2001.

2 - THIERION, André, "Révolutionnaires Sans Révolution", Paris, 1972, págs. 98-99.

3 - In "Surréalisme et Sexualité". Paris, 1971.

4 - Op. cit., pág. 235.

5 - BRETON, André - "Second Manifeste Surréaliste", in "Manifestes du Surréalisme". Paris, Gallimard, 1972, pág. 127.

6 - BARON, Jacques, "L’An I du Surréalisme", Paris, Denoël, pág. 155.

7 - THIRION, op. cit., pág. 99.

8 - Op. cit., págs. 84, 85.

9 - BRETON, André, "Premier Manifeste", in "Manifestes...", op. cit., pág. 12.

10 - In NADEAU, Maurice, "Histoire du Surréalisme". Seuil, Paris, 1964, pág. 72.

11 - SOLLERS, Philippe, "La Grande Méthode”, in "Tel Quel", n.º 34, verão de 1968.

12 - In "Nouvelle Critique", n.º 31, 1970.

13 - Op. cit., pág. 12.

14 - Op.cit., pág. 43.

15 - Cf. HOLLIER, Denis, "Le Savoir Formel", in "Tel Quel", n.º 34.


Escrito por Rita Fernandes às 08h40
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Corpo-escrita-prazer

 

Egon Shiele - Garota de cabelos pretos - 1911 Por Miguel Ângelo Oliveira do Carmo 

"A escrita é um prazer mastubartório, pois se trata de fato de se olhar gozar estuprando a folha branca que me serve de testemunha"

Gilles Deleuze

Antonin Artaud amou os malditos da literatura, esses párias que produziram uma escrita próxima à vida, uma escrita da vida. Nerval, Baudelaire, Lautréamont, Edgar Allan Poe, aqueles que tentaram, e em sentido conseguiram, pela escrita, ser nômades, atingir um fim inexistente, mas acolhedor de intensidades. Artaud, já se disse, o "crucificado", o "pesa-nervos", aniquilou com a máquina humana divina por excelência: o homem; foi preciso reconstituir sua anatomia, restituir seus órgãos eliminando-os, criando fluxos que vão além da linha da vida, de uma caminho reto traçado pela vida. Viver não é isso, não pode ser isso! Daí a necessidade do corpo (puro corpo sem órgãos), da escrita (despedaçamento de sujeitos), e do prazer (relação "masturbatória" com a escrita).

Em Artaud não temos corpo, escrita e prazer, seria não compreendê-lo; temos corpo-escrita-prazer, um processo lancinante, um ato violento no qual soltamos as amarras do pensamento, esse tendencioso a julgar, a dizer o que vamos ou devemos ser, a ter sempre a mesma expressão, pois se usa a mesma palavra, o mesmo sentido, sem, dentro da própria linguagem, "gaguejar" — gaguejemos, falantes! gaguejemos com o corpo! Percorrer esta trilha tantas vezes já percorrida, é contra isso que Artaud se insurge, seja como ator, como escritor, poeta, etc. Seus instrumentos estão próximos a nós, estão em nós, somos nós, em constante fazer-desfazer. Perder os órgãos para ganhar a vida (trágica ou não: a vida), perdê-los em uma extração fecal, intensiva, prazerosa; escrever devires, ser uma devir-escrita, feito uma metralhadora que circula para todo os lados atirando não palavras, mas letras que criarão palavras, e que logo em seguida se desfarão para dar lugar à outras; manter-se em estado catártico de prazer, ejaculando vitalidade, desordenada masturbação.

Uma escrita literária se produz sem órgãos, uma escrita corporal — o corpo, e não o pensamento, é que deve escrever. Já dizia Kafka, o que se escreve pelo corpo, com o corpo, no corpo, não deve ser lido com os olhos, apenas com suas chagas. É preciso traçar linhas sem regularidades, sentir o clímax da tinta que fica para trás e, no entanto, nos marca por dentro; a folha em branco está aí, pedindo para sangrar, ser estuprada.

Já era assim sua proposta no teatro, esse teatro cruel que deixava os corpos dos atores no último fôlego, tamanha era a produção de uma linguagem não para os olhos (nem para o pensamento), mas para o espaço. Corpo que se lança no espaço e constrói com ele um diálogo inútil ao pensar. Afecção, afecção, afecção... poderia me anular nessa palavra fazendo-me ela, criando-me por ela. Um teatro preso à narração (o ocidental), à imperceptível necessidade de significar, não é teatro, ou pelo menos não detém os fundamentos do teatro, assim como "toda literatura é porcaria", pois pretende significar e significa. Estamos presos, presos na "escrita-prisão", e, como diz Artaud, "o céu ainda pode cair sobre nossas cabeças", cabeças com o pensar paralisado, asfixiado, cabeças seguidoras de um movimento reto, assim como as palavras seguem as linhas de uma página. (Caro leitor, perdoe-me se exponho uma "escrita-prisão", da esquerda para a direita, ao modo ocidental e costumeiro, mas como escrever sobre Artaud senão experimentando-o, aqui, nesse hipertexto que vos apresento e onde as linhas não existem...)

É isso! Experimentá-lo. Sentir o corpo e o prazer serem arrebatados numa escrita artaudiana, que atravessa Artaud e o lança para o acontecimento: o estupro da folha.

Livrar o homem dos órgãos e do céu (Para acabar com o julgamento de Deus), livrá-los das percepções e afecções já seqüenciadas, medidas, prontas e embaladas. O "corpo-escrita-prazer" traz para a literatura uma escrita intensiva, próxima da vida, senão a própria vida.

Esse "esfolado vivo", Antonin Marie Joseph Artaud, nasceu em Marselha, 1896; marcado, desde a infância, pelos tormentos da carne, sempre procurou aliviar suas dores com o ópio. Com problemas psíquicos, teve uma vida de sanatórios. Fez teatro com Aragon; publicou poemas (Tric-trac du ciel) e vários livros (O teatro e seu duplo, A conquista do México, Heliogábalo ou o anarquista coroado); participou de filmes de Fritz Lang (Lilion), Dreyer (A Paixão de Joana D’Arc) e outros. Mal compreendido, assustava a todos com gritos exasperados e uma radicalidade ferrenha quando se tratava da vida, da liberdade para a vida. Da experiência iniciática com os taraumaras, no México, passando pelos eletrochoques, seus gritos silenciaram em 1948, na clínica Ivry, em Paris.

Corpo dilacerado por uma vida que sempre espreita a morte, prazer em convulsões dolorosas e escrita arrebatadora. Este é o "corpo-escrita-prazer" artaudiano em definição própria, em Post-scriptum:

Quem sou?
De onde venho?
Eu sou o Antonin Artaud
E basta dizê-lo
E como sei dizê-lo,
Imediatamente
Vereis o meu corpo atual
Voar em estilhaços
E em dois mil aspectos notórios
Refazer
Em novo corpo
Onde nunca mais
Podereis
Esquecer-me.

Será difícil esquecer-me e esquecê-lo, pois desta água eu bebi.



Escrito por Edu Castanho às 01h21
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A liquidação do Ópio - Parte I

Tenho a intenção declarada de encerrar o assunto de uma vez por todas, para que não venham mais nos encher a paciência com os assim chamados perigos da droga.
Meu ponto de vista é nitidamente anti-social.
Só há uma razão para atacar o ópio. Aquela do perigo que seu uso acarreta ao conjunto da sociedade.
Acontece que este perigo é falso.

Nascemos podres de corpo e alma, somos congenitamente inadaptados, suprimam o ópio: não suprimirão a necessidade do crime, os cânceres do corpo e da alma, a inclinação para o desespero, o cretinismo inato, a sífilis hereditária, a fragilidade dos instintos; não impedirão que haja almas destinadas a seja qual for o veneno, veneno da morfina, veneno da leitura, veneno do isolamento, veneno do onanismo, veneno dos coitos repetidos, veneno da arraigada fraqueza da alma, veneno do álcool, veneno do tabaco, veneno da anti-sociabilidade. Há almas incuráveis e perdidas para o restante da sociedade. Suprimam-lhes um dos meios para chegar à loucura: inventarão dez mil outros. Criarão meios mais sutis, mais selvagens; meios absolutamente desesperados. A própria natureza é anti-social na sua essência – só por uma usurpação de poderes que o corpo da sociedade consegue reagir contra a tendência natural da humanidade.

Deixemos que os perdidos se percam: temos mais o que fazer que tentar uma recuperação impossível e ademais inútil, odiosa e prejudicial. Enquanto não conseguirmos suprimir qualquer uma das causas do desespero humano, não teremos o direito de tentar a supressão dos meios pelos quais o homem tenta se livrar do desespero.

Pois seria preciso, inicialmente, suprimir esse impulso natural e oculto, essa tendência ilusória do homem que o leva a buscar um meio, que lhe dá a idéia de buscar um meio para fugir às suas dores.

Além do mais, os perdidos são perdidos por sua própria natureza; todas as idéias de regeneração moral de nada servem; há um determinismo inato; há uma incurabilidade definitiva no suicídio, no crime, na idiotia, na loucura; há uma incrível corneação entre os homens; há uma fragilidade do caráter; há uma castração do espírito.

A afasia existe; a tabes dorsalis existe; a meningite sifilítica, o roubo, a usurpação. O inferno já é deste mundo e há homens que são desgraçados, fugitivos do inferno, foragidos destinados a recomeçar eternamente sua fuga. E por aí afora. O homem é miserável, a carne é fraca. Há homens que sempre se perderão. Pouco importa os meios para perder-se: a sociedade nada tem a ver com isso. Demonstramos – não é? – que ela nada pode, que ela perde seu tempo, que ela apenas insiste em arraigar-se na sua estupidez.

Aqueles que ousam encarar os fatos de frente sabem – não é verdade? – os resultados de uma possível proibição no álcool. Uma superprodução da loucura: cerveja com éter, álcool carregado com cocaína vendido clandestinamente, o pileque multiplicado, uma espécie de porre coletivo. Em suma, a lei do fruto proibido. A mesma coisa o ópio.

A proibição, que multiplica a curiosidade, só serviu aos rifiões da medicina, do jornalismo, da literatura. Há pessoas que construíram fecais e industriosas reputações sobre sua pretensa indignação contra a inofensiva e ínfima seita dos amaldiçoados da droga (inofensiva porque ínfima e porque sempre uma exceção), essa minoria de amaldiçoados em espírito, alma e doença.



Escrito por Edu Castanho às 01h18
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A liquidação do Ópio - Parte II

Ah! Como o cordão umbilical da moralidade está bem atado neles! Desde a saída do ventre materno – não é? – jamais pecaram. São apóstolos, descendentes de sacerdotes: só falta saber como se abastecem da sua indignação, quanto levam nessa, o que ganham com isso. E, de qualquer forma, essa não é a questão.

Na verdade, o furor contra o tóxico e as estúpidas leis que vêm daí:
1º É inoperante contra a necessidade do tóxico que saciada ou insaciada, é inata à alma e induziria a gestos decididamente anti-sociais mesmo se o tóxico não existisse.
2º Exaspera a necessidade social do tóxico e o transforma em vício secreto.
3º Agrava a doença real e esta é a verdadeira questão, o nó vital, o ponto crucial:
Desgraçadamente para a doença, a medicina existe.

Todas as leis, todas as restrições, todas as campanhas contra os estupefacientes somente conseguirão subtrair a todos os necessitados da dor humana, que têm direitos imprescritíveis no plano social, o lenitivo dos seus sofrimentos, um alimento que para eles é mais maravilhoso que o pão, e o meio, enfim, de reingressar na vida. Antes a peste que a morfina, uiva a medicina oficial; antes o inferno que a vida.

E é aqui que a canalhice do personagem abre o jogo e diz a que vem: em nome, pretende ele, do bem coletivo. Suicidem-se, desesperados, e vocês, torturados de corpo e alma, percam a esperança. Não há mais salvação no mundo. O mundo vive dos seus matadouros.

E vocês, loucos lúcidos, sifilíticos, cancerosos, meningíticos crônicos, vocês são incompreendidos. Há um ponto em vocês que médico algum jamais entenderá e é este ponto, a meu ver, que os salva e torna augustos, puros maravilhosos: vocês estão além da vida, seus males são desconhecidos pelo homem comum, vocês ultrapassam o plano da normalidade e daí a severidade demonstrada pelos homens, vocês envenenam sua tranqüilidade, corroem sua estabilidade. Suas dores irreprimíveis são, em essência, impossíveis de serem enquadradas em qualquer estado conhecido, indescritíveis com palavras. Suas dores repetidas e fugidias, dores insolúveis, dores fora do pensamento, dores que não estão no corpo nem na alma mas que têm a ver com ambos. E eu, que participo dessas dores, pergunto: quem ousaria dosar nosso calmante? Em nome de que clareza superior, almas nossas, nós que estamos na verdadeira raiz da clareza e do conhecimento? E isso, pela nossa postura, pela nossa insistência em sofrer. Nós, a quem a dor fez viajar por nossas almas em busca de um lugar mais tranqüilo ao qual pudéssemos nos agarrar, em busca da estabilidade no sofrimento como os outros no bem-estar. Não somos loucos, somos médicos maravilhosos, conhecemos a dosagem da alma, da sensibilidade, da medula, do pensamento. Que nos deixem em paz, que deixem os doentes em paz, nada pedimos aos homens, só queremos o alívio das nossas dores. Avaliamos nossas vidas, sabemos que elas admitem restrições da parte dos demais e, principalmente, da nossa parte. Sabemos a que concessões, a que renúncias a nós mesmos, a que paralisias da sutileza nosso mal nos obriga a cada dia. Por enquanto, não nos suicidaremos. Esperando que nos deixem em paz.

Texto extraído do livro “Escritos de Antonin Artaud” da Coleção Rebeldes e Malditos, L&PM Editores, 1983 e sucessivas reedições.
Seleção, tradução, prefácio e notas de Claudio Willer



Escrito por Edu Castanho às 01h17
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Drogas que Artaud usava (Ópio e Morfina - Parte I)

CEBRID - Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas

ÓPIO e MORFINA

( PAPOULA DO ORIENTE, OPIÁCEOS, OPIÓIDES )

Definição e histórico

Muitas substâncias com grande atividade farmacológica podem ser extraídas de uma planta chamada Papaver somniferum, conhecida popularmente com o nome de papoula do oriente. Ao se fazer cortes na cápsula da papoula, quando ainda verde, obtém-se um suco leitoso, o ópio (a palavra ópio em grego quer dizer suco).

Quando seco este suco passa a se chamar pó de ópio. Nele existem várias substâncias com grande atividade. A mais conhecida é a morfina, palavra que vem do deus da mitologia grega Morfeu, o deus dos sonhos.

Pelo próprio segundo nome da planta somniferum, de sono, e do nome morfina, de sonho, já dá para fazer uma idéia da ação do ópio e da morfina no homem: são depressores do sistema nervoso central, isto é, fazem nosso cérebro funcionar mais devagar. Mas o ópio ainda contém mais substâncias sendo que a codeína é também bastante conhecida. Ainda, é possível obter-se outra substância, a heróina, ao se fazer pequena modificação química na fórmula da morfina. A heróina é então uma substância semi-sintética (ou semi-natural).

Estas substâncias todas são chamadas de drogas opiáceas ou simplesmente opiáceos, ou seja, oriundas do ópio; podem ser opiáceos naturais quando não sofrem nenhuma modificação (morfina, codeína) ou opiáceos semi-sintéticos quando são resultantes de modificações parciais das substâncias naturais (como é o caso da heroína).

Mas o ser humano foi capaz de imitar a natureza fabricando em laboratórios várias substâncias com ação semelhante a dos opiáceos: a meperidina, o propoxifeno, a metadona são alguns exemplos. Estas substâncias totalmente sintéticas são chamadas de opióides (isto é, semelhantes aos opiáceos).

Estas substâncias todas são colocadas em comprimidos ou ampolas, tornando-se então medicamentos. A tabela ao lado dá exemplos de alguns destes medicamentos.

Tabela — Nome de alguns medicamentos vendidos no Brasil contendo drogas tipo ópio (naturais ou sintéticos) nas suas formulações (segundo Dicionário de Especialidades Farmacêuticas — DEF 1990/91).

Opiáceo ou Opióide

Indicação de uso médico

Nomes comerciais dos medicamentos

Preparações farmacêuticas

Naturais:
Morfina

Analgésico

Morfina

Ampolas; comprimidos
Pó de ópio Anti-diarréico; Analgésico Tintura de ópio; Elixir Paregórico; Elixir de Dover Tintura alcoólica
Codeína Antitussígeno; Analgésico Belacodid; Belpar; Codelasa; Gotas Binelli; Naquinto; Setux; Tussaveto; Tussodina; Tylex; Pastilhas Veabon; Pastilhas Warton; Benzotiol Gotas; comprimidos; supositórios
Sintéticos:
Meperidina ou Petidina
Analgésico Dolantina: Demerol; Meperidina Ampola; comprimidos
Propoxífeno Analgésico Algafan®; Doloxene A; Febutil; Previum Compositum; Femidol Ampolas; comprimidos
Fentanil Analgésico Fentanil; Inoval Ampolas
Semi-Sintético:
Heróina
Proibido o uso médico
Metadona Tratamento de dependentes de morfina e heróina Não existe no Brasil
Zipeprol* Antitussígeno Eritós; Nantux; Silentós; Tussiflex Gotas; xaropes; supositórios

* A classificação do Zipeprol como uma substância com ação de opiáceo foi recente. A intoxicação com esta substância pode com freqüência vir acompanhada de convulsões.



Escrito por Edu Castanho às 00h54
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Drogas que Artaud usava (Ópio e Morfina - Parte II)

          Efeitos no cérebro

Todas as drogas tipo opiáceo ou opióide têm basicamente os mesmos efeitos no SNC: diminuem a sua atividade. As diferença ocorrem mais num sentido quantitativo, isto é, são mais ou menos eficientes em produzir os mesmos efeitos; tudo fica ent!ão sendo principalmente uma questão de dose. Assim temos que todas essas drogas produzem uma analgesia e uma hipnose (aumentam o sono): daí receberam também o nome de narcóticos que significa exatamente as drogas capazes de preduzir estes dois efeitos: sono e diminuição da dor. Recebem também por isto o nome de drogas hipnoanalgésicas. Agora, para algumas drogas a dose necessária para este efeito é pequena, ou seja, elas são bastante potentes como, por exemplo, a morfina e a heroína; outras, por sua vez, necessitam doses 5 a 10 vezes maiores para produzir os mesmos efeitos como a codeína e a meperidina.

Algumas drogas podem ter também uma ação mais específica, por exemplo, de deprimir os acessos de tosse. É por esta razão que a codeína é tão usada como antitussígeno, ou seja, é muito boa para diminuir a tosse. Outras têm a característica de levarem a uma dependência mais facilmente que as outras; daí serem muito perigosas como é o caso da heroína.

Além de deprimir os centros da dor, da tosse e da vigília (o que causa sono) todas estas drogas em doses um pouco maior que a terapêutica acabam também por deprimir outras regi!ões do nosso cérebro como por exemplo os que controlam a respiração, os batimentos do coração e a pressão do sangue. Como será visto, isto é muito importante quando se analisa os efeitos tóxicos que elas produzem.

Via de regra as pessoas que usam estas substâncias sem indicação médica, ou seja, abusam das mesmas, procuram efeitos característicos de uma depressão geral do nosso cérebro: um estado de torpor, como que isolamento das realidades do mundo, uma calmaria onde realidade e fantasia se misturam, sonhar acordado, um estado sem sofrimento, o afeto meio embotado e sem paixões. Enfim, um fugir das sensações que são a essência mesma do viver: sofrimento e prazer que se alternam e se constituem em nossa vida psíquica plena.

Efeitos no resto do corpo

As pessoas sob ação dos narcóticos apresentam uma contração acentuada da pupila dos olhos ("menina dos olhos"): ela às vezes chega a ficar do tamanho da cabeça de um alfinete. Há também uma paralisia do estômago e a pessoa sente-se empachada, com o estômago cheio como se não fosse capaz de fazer a digestão. Os intestinos também ficam paralisados e como conseqüência a pessoa que abusa destas substâncias geralmente apresenta forte prisão de ventre. É baseado neste efeito que os opiáceos são utilizados para combater as diarréias, ou seja, são usados terapeuticamente como antidiarréicos.

Efeitos tóxicos

Os narcóticos sendo usados através de injeções dentro das veias, ou em doses maiores por via oral, podem causar grande depressão respiratória e cardíaca. A pessoa perde a consciência, fica de cor meio azulada porque a respiração muito fraca quase não mais oxigena o sangue e a pressão arterial cai a ponto de o sangue não mais circular direito: é o estado de coma que se não for atendido pode levar à morte. Literalmente centenas ou mesmo milhares de pessoas morrem todo ano na Europa e Estados Unidos intoxicadas por heroína ou morfina. Além disso, como muitas vezes este uso é feito por injeção, com freqüência os dependentes acabam também por pegar infecções como hepatites e mesmo aids. Aqui no Brasil, uma destas drogas tem sido utilizada com alguma freqüência por injeção venosa: é propoxifeno (principalmente o Algafan®). Acontece que esta substância é muito irritante para as veias, que se inflamam e chegam a ficar obstruídas. Existem vários casos de pessoas com sérios problemas de circulação nos braços por causa disto. Há mesmo descriçao de amputação deste membro devido ao uso crônico de Algafan®.

Outro problema com estas drogas é a facilidade com que elas levam à dependência, ficando as mesmas como o centro da vida das vítimas. E quando estes dependentes, por qualquer motivo, param de tomar a droga, ocorre um violento e doloroso processo de abstinência, com náuseas e vômitos, diarréia, câimbras musculares, cólicas intestinais, lacrimejamento, corrimento nasal, etc, que pode durar até 8-12 dias.

Além do mais o organismo humano se torna tolerante a todas estas drogas narcóticas. Ou seja, como o dependente destas não mais consegue se equilibrar sem sentir os seus efeitos ele precisa tomar cada vez doses maiores, se enredando cada vez mais em dificuldades, pois para adquirí-la é preciso cada vez mais dinheiro.

Para se ter uma idéia de como os médicos temem os efeitos tóxicos destas drogas basta dizer que eles relutam muito em receitar a morfina (e outros narcóticos) para cancerosos, que geralmente têm dores extremamente fortes. E assim milhares de doentes de câncer padecem de um sofrimento muito cruel, pois a única substância capaz de aliviar a dor, a morfina ou outro narcótico, tem também estes efeitos indesejáveis. Nos dias de hoje a própria Organização Mundial da Saúde tem aconselhado os médicos de todo o mundo que nestes casos, o uso contínuo de morfina é plenamente justificado.

Felizmente, são pouquíssimos os casos de dependência com estas drogas no Brasil, principalmente quando comparado com os problemas de outros países.

Entretanto, nada garante que esta situação não poderá modificar-se no futuro.

Fonte: Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas - CEBRID



Escrito por Edu Castanho às 00h54
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